domingo, dezembro 10, 2006

O “Clube dos corações solitários”

Conheci Cherry Chérie (nome fictício de stripper bem real, graças a Deus) no “Clube dos Corações Solitários”, nos arredores de Lisboa.
Cherry Chérie tem sabor de cereja. É uma querida. Cherry (da parte da mãe, que nasceu em Nottingham), Chérie da parte do pai (que nasceu em Saint-Malo).
Cherry terá sido concebida durante umas férias loucas em Bucareste. Acabou por nascer em Curitiba, onde viveu 24 anos, antes de chegar a Portugal.
Mistura de anjinho de Boticelli com mulher fatal. Voz de mel, olhar de bambi, se os bambis tivessem os olhos azul-mediterrânico, da cor do mar. O cabelo louro desfralda-se pelos ombros em ondas de luta greco-romana com Adamastor. Não é muito alta, nem muito baixa. Os gestos são pausados, o toque sabe a meiguices.
Os seios construídos à medida, num alfaiate doutorado em pecados. As pernas como um compasso de duas hastes revestidas a seda.
Cherry Chérie passou a dez metros de mim e ajeitou o top.
Vislumbrei a ponta de um seio numa fugaz fracção de segundo. E foi aí que comecei a perder-me no mar dos seus olhos, intuindo hipocritamente um desejo cruel de lhe transformar os seios em romãs maduras para devorar numa alvorada de Bali, com Deus a sorrir bem lá de cima.
Pensei que Cherry Chérie era de leste: Letónia, Estónia, Lituânia, Rússia. Era tão-só brasileira. Sem Rio, S. Paulo ou Salvador.
Era de Curitiba.
E numa private dance de fascínio e sedução fugiu-me a língua para o lapso:
— Curitiba, Pará?
— Não, Belém é que é Pará. Curitiba é Paraná.
Eu farto de saber. E naquela altura o meu lapso pareceu-me homérico, irreparável. Redimi-me, falando de perfumes. E assim cheirámos suavemente os nossos corpos.
Mas o seu verdadeiro perfume era a sedução.
Senhoras e senhores, leitores e leitoras, meninos e meninas, silêncio, por favor! Porque de aqui até ao final do livro, quando calhar, não se vai cantar o fado. Vai cantar-se outro fado.
O destino de uma stripper brasileira em Portugal. Até que a voz me doa e a pena me caia dos dedos.
Pelo meio haverá putas, jazz, desporto, cinema e uma legião de pequenos ácaros chamados etecéteras. A minha vida, portanto, num breve período de tempo. Semanas, para ser mais concreto. Uma espécie de moda Outono/Inverno de Lisbon by Night 2004.
A rasar uma stripper que me passou à tangente e penetrou na alma.
Pois não é assim que se escrevem os livros?

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SHERRY — Type of yellow or brown wine.
CHERRY — 1. Type of small, yellow or red (usually heart-shaped) fruit, with a stone in the middle; 2. the tree on wich this fruit grows. Also adjective having the red colour of ripe cherries.

(Collins English Learner’s Dictionary, latest reprint, 1978, 273 escudos)
Luís Graça, nº11, turma 19, 3º curso, Liceu Camões, Lisboa.

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Dicionário Editora (Porto Editora), 1966, 180 escudos.
Por Armando de Morais, Professor Metodólogo do Liceu Normal de D. Manuel II.
Cherry — cereja, cerejeira; cherry-bob — gaipo com duas cerejas; cherry-brandy — ginjinha; cherry-pie — heliotrópio; cherry-red — rubro-cereja; cherry-stone — caroço de cereja; cherry-tree — cerejeira.

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Chérie — querida, amada, ternamente.

Novo Dicionário Francês/Português. Lello e Irmãos Editores, 1962. José da Fonseca.
Composto em conformidade com os melhores e mais modernos dicionários.


Grande variedade de frases e locuções, assim como de muitos termos de Ciências e Artes, Medicina, Química, História Natural e Botânica, Comércio, Marinha, de um vocabulário Geográfico, e outro de Nomes Próprios, e enriquecido com a pronúncia figurada da língua francesa, de maneira a facilitá-la ao Leitor sem ajuda de mestre.
Nova edição corrigida e aumentada por José Lello e Edgar Lello.

“Necessário se tornava, pois, o aparecimento de um dicionário que, além de grande valor para os estudiosos portugueses, brasileiros e franceses, fosse de extrema utilidade para todos aqueles que conhecem a língua de Camões, o português que melhor conheceu, falou e escreveu a sua língua”
(Setembro de 1962, prefácio dos editores)

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Cerejo — o tempo das cerejas. Cereja — nome de diversos frutos que se assemelham ao das cerejeiras. Do latim popular ceresia, do clássico cerasum, do grego Kerásion.

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And now for something completely different

E a propósito de Curitiba, comprei o DVD “Universitárias de Curitiba” (Hot Gold Collection, www.hotgoldsex.com).
E na capa, à laia de cartão de visita: “Uma viagem ao sul do Brasil. Anal, lesbo”. Custou 25 Euros, na sex-shop ao pé da Praça do Chile, para quem desce da Rovisco Pais, passa ao pé de um bar que se chamava “Antigamente qualquer coisa” e depois corta à direita e anda uns 80 metros, até chegar à montra com lingerie e néons vermelhos.
Este DVD foi comprado exclusivamente por causa deste livro. Movido por uma vontade de investigação científica, percebi que era importante conhecer (nem que fosse através de DVD) meninas de Curitiba, a fim de as comparar com Cherry Chérie.


Atenção, nada de confusões! As actividades são bem diferentes!
Queria apenas comparar anatomias, sotaques, vozes. Enfim, ficar com a alma mais cheia de Curitiba.
Elenco: Cristiane, Mariana, Nívia, Cláudia, Ricardo e Jorge.
Ainda só vi uma cena do DVD. Deu para perceber que o nível educacional de Cherry Chérie é bastante mais elevado do que o das meninas do DVD. E Cherry Chérie é também bastante mais bonita.
Estes DVD apostam na espontaneidade e nos baixos custos. A piada toda está em ouvir o “brasileiro”, que é uma língua cheia de mel. Não obstante, a pornografia tem o seu jargão e todas as línguas definem um glossário relativamente reduzido.
Algumas frases e termos mais usados: “Dêlísssia”; “Gostozzza”; “Tá gôstando?”. Os gemidos tendem a ser um tanto cansativos. O sexo em brasileiro é mais dorido, como se alguém tivesse dado um pontapé num calhau ao entrar no mar.
Uma das meninas, acho que a Nívia (que por acaso é cor de canela) faz de “pivot” e distribui jogo pelo resto do filme. Ou seja, ela é que vai evocando as histórias que servem de pretexto a “flashbacks” (analepses, em termos literários) em que se desenrola o sexo.
Na cena que vi ela tinha um strap-on (um dildo com cinto, para actividades lésbicas ou de simulação masculina) e toma lá vai buscar Tibi na outra menina.
O princípio da cena é que é mesmo uma “dêlísssia”.
— Sabe, eu trouxe um presentinho para você da minha viagem.
— A sério?
— Sim, vou buscar para cê ver.
Isto tudo dito com muito mel. Se, por mera hipótese, colocássemos uma audiência-piloto numa sala de cinema, a ver o filme sem imagem, começando por este diálogo, niguém diria que se tratava de um filme porno. Poderiam alvitrar coisas como: um encontro de amigas, uma delas está prestes a ser mamã e a outra trouxe-lhe um ursinho de pelúcia para o bebé.
O porno italiano é mais cantado e óptimo para utilizar o humor; o porno americano é mais standartizado e pragmático, como numa linha de montagem, mas nas grandes produções o caso muda de figura; o porno francês é o mais bonito de se ouvir. A língua francesa casa melhor com o sexo. Não sei, digo eu.
Um desastre verdadeiro é o porno falado em espanhol. As dobragens conseguem ser atrozes. Não é coisa que se faça a um filme pornográfico, 1º escalão, hard core.

2 Comments:

Blogger bolas de sabão said...

:) fabuloso, as usual. realmente as dobragens em castelhano são do pior, viva o francês.

9:24 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

Obrigado.
O mesmo se diga de outras dobragens. Ainda agora confirmei o génio de Robbin Williams em "Happy Feet", desdobrando-se em duas personagens. Um guru estilo "Barry White" e um Ramón maravilhoso. Quem não se lembra dele a fazer de génio em Aladino?

6:30 da manhã  

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