domingo, dezembro 09, 2007

4 de Dezembro de 2004

Esgalha aí uma, ó solitário, disse a menina húngara!

08h – Acabo todo o trabalho de impressão e organização de que preciso para a primeira sessão de autógrafos no bar da livraria Assírio e Alvim, no King Triplex. A noite foi cansativa, mas ao mesmo tempo fico mais descansado. Já tenho as coisas feitas. No entanto, acho que o melhor é mesmo tomar um kainever, por causa das tosses.

(Por causa das tosses o melhor é um rebuçadinho de Santo Onofre, do Dr. Bayard ou um Halls de mel e limão. Por causa das tosses foi força de expressão).

Apesar do kainever não consigo dormir. A minha cabeça está ocupada com muitas coisas.


10h - Decido apanhar a sessão da manhã de hidroginástica, no Holmes. Estreio-me na água com o Hugo Castro, que cria um ambiente muito simpático. Mais tarde venho a descobrir que é filho do jornalista Mário Rui de Castro e neto de um grande companheiro das lides profissionais: Joaquim Castro, muito justamente distinguido pelo desempenho das suas funções. Um dos meus professores de hóquei em patins e um homem profundamente elegante na forma como está na vida.
Apesar da “directa”, aguento-me bem na aula. Depois fico a nadar um bom bocado, para me cansar ainda mais. E porque uma piscina sossegada é um bom local para desopilar de uma “directa”. Conheço o monitor de hidrobike, o Raúl. Fico a espreitar meia-hora da sessão de hidrobike, com os sócios do Holmes que não podem fazer a sessão na Defensores de Chaves, por causa das obras.
Almoço e vou para a Luz, ver o hóquei do Benfica, com o VIC, para a Taça CERS. Ganhou o Benfica 5-2, mas esteve a vencer por 4-0. Deixou reduzir para 4-2 e marcou o quinto golo a 16 segundos do final. A equipa das “águias” continua abaixo das minhas expectativas e o encontro não foi grande espingarda. Começo a sentir-me muito cansado e zonzo.
Vou até ao Colombo e tomo um táxi para o Príncipe Real. Uma amiga lança um livro infantil na livraria Ler Devagar. Fico lá a conversar, tomo um favaios, compro o livro e desço até ao Chiado. Vou à FNAC. Compro um álbum de BD.
Quando desço para os Restauradores, a caminho da loja Tema, lembro-me de que me falta cumprir uma promessa aos leitores.

Já me estava a passar, mas tinha prometido assistir a um espectáculo de sexo ao vivo na loja ao lado do Elevador. Uma das Mega-Sex. Nunca sei se é a 1 ou a 2. Não me chamo Tomás, por isso não me podem considerar um “peeping Tom”.


20h 22m - Entro e consulto os horários na parede das cabinas circulares. Faltam 8 minutos para começar um show. Serve muito bem. O espectáculo é protagonizado por uma dupla espanhola. Vou à cabina dos trocos e pergunto como é que aquilo funciona.
É assim: começa com três euros para abrir a “comporta”. Dizem-me que com cerca de 8 euros dá para ver o espectáculo todo, que leva aí uns 15 minutos. Troquei dez euros em moedas e não as quis meter no bolso. Sei lá onde é que andaram as moedas. Fico com elas na mão direita, pronta a entrar em acção nas ruelas de Ranhura City. Quem mete moedas mais rápido do que eu? Apenas Billy, the Kid.


20h30m – Os artistas entram em palco, quais gladiadores sexuais. O palco é vermelho, rotativo, em velocidade de cruzeiro.Aquilo lembra o “Paris, Texas”, do Wim Wenders, que me deslumbrou numa sessão do Londres. Lembro-me da Kinsky. Mas a menina espanhola é diferente. Magrinha, ladina, pequenina, estilo colegial, com dois totós a apanhar os lisos cabelos negros. O parceiro é um tipo lingrinhas, com uma barbita à César Bórgia e umas calças de camuflado à Parfois.
A chavalita abre-lhe a braguilha e vá de aviar no vigoroso, que se faz tarde e não há tempo para grandes preliminares. Talvez o palco rotativo provoque tonturas nos artistas. A erecção do senhor não é lá grande coisa, mas o tamanho do bicho é bem acima do normal. Nem pensar em socialismos utópicos como a prática onírica do “deep throat”. Dá lá para enfiar um mangalho daqueles pelas goelas. Nem a “Barracuda de Trás-os-Montes”!
Lá vou metendo as moedas no “peepxímetro” e ainda tenho mais uns moedas de 1 euro no bolso. Não estou puto excitado, porque o meu objectivo não é masturbar-me. Estou com os sacos da FNAC na mão e ainda não percebi que os artistas me podem ver. A ideia é mesmo descrever a cena ao leitor e bazar dentro de 20 minutos. Não me passa mesmo pela cabeça “esgalhar ao pessegueiro”, na terninologia da Força Aérea, segundo contou o Zé Tó no Liceu Camões. O Zé Tó era um grande matulão que fazia anos no mesmo dia que eu e hoje trabalha em hotelaria.
Cinco minutos volvidos, meto os cornos mais perto do vidro e espreito para o tecto, para poder descrever tudo minuciosamente. O tecto tem luzinhas e começo a prestar mais atenção aos espelhos que circundam a cabina, tipo caleidoscópio.

O menino toma a iniciativa das posições. Vai ajeitando a menina e vão trocando de tempos a tempos. A erecção continua a meio-gás, mas dá perfeitamente para penetrar. O par tem à-vontade interactivo, está bem automatizado, mas a coisa tem ar de cena normal, muito diferente dos atletas dos filmes porno.
A menina Natália chupa mais um bocadinho no Carlos e acabam por se ir embora, dizendo-me adeus. Não respondo, porque ainda não percebi que me estão a ver. Fico espantado por o menino não ter ejaculado. Assim é mais fácil fazer vários espectáculos por dia. Lembro-me de um livro do italiano Alberto Moravia (“A virgem guerreira” ou “A romana”?) em que uma senhora que sustentava um jovem exigia que ele se viesse dentro do seu rabo. Eróstrato era o nome do mocinho.
Ainda estou a pensar nisto, entra logo uma menina de “soutien” rosa para o palco. Sorri-me. Show de strip. Olho para o “peepxímetro”. Tenho créditos. Mais vale esgotá-los. Mas considero a minha missão cumprida. Percebo então que me vêem. Os espelhos do outro lado reflectem a minha cara. Só não vejo é os outros clientes.
Passado um bocadinho, a menina fica nua rapidamente e começa a fazer-me sinais com a mão: 6. Ahn? Mas 6 o quê? Penso que tenho de mudar para a cabina 6. Na minha cabecinha de estreante no “peep”, com “directa” em cima, a versão que faz sentido é esta: para o sexo ao vivo é uma cabina, para o strip temos de ir para outra. Mas então o que faço aos créditos? Tento carregar na ranhura para os recuperar. Népias. Perco para aí 1 euro. Lá saio e entro na cabina 6. Meto três euros e lá está a menina morena a sorrir-me. Penso: já estou outra vez legal, mas isto é um bocado mal feito, parece o meio-campo do Benfica e do Sporting. Nunca se percebe muito bem o que se está a passar entre os jogadores.
Entre uma loura para a cabina, fica logo nua e faz-me sinal com os dedos: 8. Mas 8 o quê? 6 e 8 são 14, pronto. Ainda agora entrei aqui e está aquela a mandar-me para a cabina 8. Continuam a sorrir para mim. Nesta altura percebo perfeitamente que me estão a ver. Concluo que estou no local errado à hora certa, mas que elas não estão muito zangadas com o meu estatuto de imigrante ilegal. Vou fazendo gestos para elas, mas o diálogo gestual está num impasse. Encolho os ombros. Sei lá o que se está a passar, parece um solo de clarinete do Courtney Pine.
Saio outra vez da cabina com créditos. Não vejo nenhuma cabina 8, para onde ela me está a apontar. Ao lado da que acabei de sair diz 11. Começo a sentir-me o Saltitão Tornicotim Tornicotão do “Carrossel Mágico” da minha infância. Mas não vejo o Franjinhas (deve estar nos filmes de zoofilia), a Anita (deve atacar no Cais do Sodré) ou o gajo da estação (por certo líder sindical da CP).

Sinto-me um bocado como na sala das máquinas do Casino Estoril. Sempre a abrir. Só que em vez das três maçãs apareceram-me duas gajas todas nuas que não dão “jackpot”.
Vou à cabina dos trocos esclarecer a situação e pedir a táctica ao mister. O gajo é bastante simpático. Na TV do fundo, ao alto, está a jogar o Belém, na Sport TV. Ponho-me a falar da minha deslocação a Mostar, pela Gazeta dos Desportos. O moço dos trocos (que é o “speaker” dos espectáculos de sexo ao vivo, gramava fazer um relato, um dia destes) explicou-me que o que elas indicam é o seu número de código e não o da cabina. Estavam a tentar atrair-me para números privados. Sabia lá eu!
Afinal eu não estava ilegal. Estava era a fazer figura de urso. O corpo já não está a funcionar lá muito bem, a cabeça ainda menos.
Pergunto os preços. O moço diz que é a partir de dez euros, mas que não pode negociar. A questão é mesmo com as meninas, em diálogo ao vivo. Elas é que sabem. As cabinas são ao canto, com cadeiras de um lado, vidro ao meio e menina do outro.
Bem, já que estou ali para informar o leitor, resolvo “ir” com a Shirley, a loura. Pergunto se posso pagar via multibanco. Não tenho problemas de controlo de talões em casa. Assumo tudo. Sou solteiro e bom rapaz. Fica assim combinado com o moço dos trocos: vou lá à cabina combinar com ela, depois regresso para pagar no multibanco e volto à cabina. O moço dos trocos diz-me que elas são de leste e falam espanhol.
Lá chego à cabina.
Olho para o chão. É de empedrado. Parece-me limpo. Olho com cuidado. Mas mesmo assim não pouso os sacos no chão. Sento-me e fico com eles ao colo, o que representa um volume considerável. São vários jornais, o livro infantil da minha amiga e o álbum de Monsieur Mardi-Gras, segundo volume. É uma visão da morte cheia de humor negro, com um pendor filosófico e um desenho fabuloso. A preto-e-branco, claro.
A menina chega e pergunta-me em espanhol:
— Isso são presentes de Natal?
— Não. São jornais e um álbum de BD para mim. E um livro infantil para a filha de um amigo, que se chama Patrícia Alexandra.
Iniciamos as conversações, como me tinha dito o moço dos trocos. Digo que quero um espectáculo com um “consolador” (ó pá, o que é que querem, os espanhóis dizem assim...) e ela pergunta:
— Vibrador?
— Sim.
Pois.
— São 40 euros.
— Quanto tempo?
— Dez minutos.

Mais tarde percebo que aquilo dava para baixar (digo eu), mas pensei que não estava em Marrocos e que era “prix unique”. Que não dava para negociar “bon marché”. Que o preço estava tabelado por elas como nos clubes de strip. Digo que vou pagar ao multibanco e volto.
E ela: “Não voltas nada!”.
Foda-se! Se há coisa que me tira a tesão é chamarem-me mentiroso!

(N.A. - Não é nada disso, mas o melhor é preparar o leitor para o desfecho que se segue)

Ela pergunta-me quanto tempo demoro. Atão? Estamos no contra-relógio dos mundiais de ciclismo? Num rally paper? Numa prova de orientação?
— Não sei. Depende do senhor do multibanco e dos clientes.
Ela diz para eu ir pagar e voltar. Espera por mim cinco minutos.
Bem, lá saio. Sou um homem de palavra. É óbvio que vou voltar. Prometi aos leitores que lhes dizia como era um show de sexo ao vivo e aqui estou eu! Assim como assim, lá vou esvaziando a conta, de uma maneira ou de outra.
Pago os 40 euros no multibanco (sem espinhas, o gajo do multibanco também é bastante simpático) e depois tenho de passar pelo moço dos trocos, com o talão, para ele me dar os 40 euros em “pat cash”.
Quando regresso à cabina vejo que tranquei a porta (que é de correr) sem saber que o tinha feito. Volto e chamo o moço dos trocos. Ele lá vem solícito, qual bombeiro:
— Isto está a transformar-se numa odisseia — digo eu, sorridente.
Entro. Ué? Cadê a minina? Mistério! Mistério! Mistério! Como diriam os grandes palhaços Colombaioni, com quem tive o privilégio de dividir o palco do Trindade, quando me sacaram da assistência para fazer um número de homenagem ao cinema mudo.
Isto não é cinema mudo, mas tem partes gagas. O moço dos trocos diz que vai chamar a menina. Lá me torno a sentar, com os sacos ao colo. Não tenciono preocupar-me com erecções. Só quero ver a menina para descrever ao leitor o espectáculo. E estou todo estoirado da “directa”.

(N.A. - É verdade, mas é mais uma desculpa para o desfecho que se segue)

Finalmente, aparece a menina e diz-me para carregar na tecla 8 e pôr 3 euros na ranhura. Aquilo parece o intercomunicador de um prédio.
— De onde achas que sou?
— De leste, certamente.
— Sou da Hungria.
— Budapeste?
— Sim.
— És muito bonita.
— Sou assim-assim.
— Não sejas modesta. Bem, é agora que te dou as notas, não é?
— Pois.
Passo-lhe uma nota de 20 e duas de 10 pela fresta do vidro, que deve ter uns 3 a 4 centímetros, se tiver. A fresta está junto à parede do lado direito da cadeira. Mal dá para meter os dedos. Convém, para o pessoal não se esticar.
Ela volta a perguntar-me que livros tenho no saco. Eu ainda acredito que é curiosidade natural. A menina da Letónia no “Maybe” não me viu o “Fadas Láureas” de ponta a ponta e não ficou a falar comigo uma meia-hora de literatura russa? E nem sequer bebeu nada. ‘Tá bem que era tarde e aquilo já estava “slow”, mas mesmo assim...
Seja como fôr, peço o livro das regras:
— Time out. O tempo então não conta para os dez minutos combinados, pois não?
Ela concorda. Mas o facto é que os créditos estão a cair. Não me apercebo que está a contar para a chave do totobola. Pensei que era 40 euros/dez minutos/show de vibrador. O tanas!
Mostro-lhe umas páginas do Monsieur Mardi Gras, pergunta-me a profissão, lá digo umas coisas, o meu nome, etc. Olha, os 3 euros acabaram!
Ela diz-me que tenho de ir buscar mais. Eu protesto de forma civilizada. Afirmo que já andei demais no “Carrossel Mágico” e que tínhamos combinado que o tempo não estava a contar. Atão? Isto é tudo do Alberto João Jardim?
Ela diz que se eu tiver dinheiro vai trocar para mim. Desconfio que não é um procedimento comum, que o espectador normal é tipo cãozinho de língua de fora e já vai preparado para andar tipo space shuttle, “vaivém especial”.
PONTO DA SITUAÇÃO (eu sei que tenho cara de otário solitário): já arrotei uns 15 euros no sexo ao vivo, mais 40 no espectáculo combinado, mais 3 a abrir a janela.

Bem, acabo por condescender. Perdido por um, perdido por mil.
Ela sai da cabina e volta pouco depois, com a minha última nota de 5 euros trocada em moedas de 1 euro. E eu ainda tinha mais umas três moedas de 1 euro no bolso, mais uma série delas de 50 cêntimos e 20 cêntimos. E outras minorcas. Por acaso era um dia cheio de trocos, por causa dos táxis (de casa para a Luz e do Colombo para o Príncipe Real) e dos jornais.
Lá meto mais 3 euros na ranhura, que dá para os tais dez minutos prometidos de espectáculo. Mas a minha disposição está um bocado amolecida, com tanta burocracia. Deviam criar um Ministério do Peep Show, com um secretário de Estado dos Assuntos Ranhurais.
Ela fica sentada na cadeira, de seios à mostra (bonitos). Pergunta se não quero masturbar-me. Aquilo agarrou-me completamente de surpresa. Já sei que existe papel para limpar as mãos. Ouço contar histórias há muito tempo, mas para mim é todo um mundo novo de Aldous Huxley (por acaso não li o livro).
Não estou para me exibir diante da menina, com um vidro pelo meio. O “El Negrito” é para as eleitas. Para os camaradas do ténis de mesa do Inatel. Para breves instantes no Holmes Place. Aquilo é mais fino e a malta anda de toalhas à volta da cintura, ao contrário do Inatel, em que a malta já conhece a caralhada toda, bem como o estilo de jogo dos adversários.
Palavra de honra que penso assim: no estado em que estou vou dar barraca. Não vim cá para isto. Mas também penso que devo aproximar-me o mais possível da realidade, se estou a escrever sobre as situações. Há limites, claro, mas este ainda é um limite perfeitamente ultrapassável.
O pior é que não faço ideia por onde andaram as moedas. Isso é um factor altamente inibidor. Se nem pousei os sacos no chão (limpo), não vou estar a tocar uma segóvia com a mão que andou a jogar às moedas.
— Tenho as mãos sujas. Não estava a contar com isto. Vinha só para ver. Querias mesmo que eu me masturbasse?
Ela diz que sim e faz um sorriso maroto.

(Nesta altura já estamos a falar em inglês, que o vidro abafa um bocado as palavras e ela mudou do espanhol para o inglês. Lembro-me do ditado que se dizia no liceu: “Surdos e moucos já eu enrabei uns poucos”).

Continuo abananado. Qual era a dela? Já tinha recebido. Mais punheta menos punheta, que diferença lhe fazia? Não estava propriamente toda excitada com os meus sacos da FNAC, com a minhas olheiras de estimação, com o meu ar de otário simpático de capital ibérica.
Talvez pense que um gajo é tímido e depois se pode viciar na punheta “ao vivo”. Não é mal pensado. Não tenho outra explicação.

Talvez goste mais de masturbar-se a dois, retirando algum prazer da situação. Menos provável. Não estou a dizer que não tire nenhum prazer, mas acho que a questão é secundária na vida da menina.
Ela insiste para eu me masturbar. O olhar exerce uma estranha influência em mim. Tipo cobra do “Livro da Selva”, a Casca, com o seu olhar magnético. Além do mais sou um tipo bem avontadado e cavalheiresco, gosto de fazer a vontade às pessoas. Mas dos milhares de portas que já abri para as senhoras passarem até à primeira braguilha numa cabina de uma sex shop vai um passo de Armstrong na lua...
Quando ela saca de um spray dentro de uma pequena bolsa “nécessaire preta”, vão-se-me os argumentos.
— O que é isso? Perfume?
— Não. É álcool puro.
Deve ser para limpar o vibrador. Não estou a ver que toda a gente tenha pruridos como eu. Ou então o spray também serve para ajudar a limpar as mãos dos clientes. Menos provável. Para isso está lá o papel e a ranhura no vidro não está propriamente preparada para o efeito.
Coloco as pontas dos dedos (menos do polegar, que não cabe) através da ranhura, com a palma da mão virada para dentro.
Pff! Pff!
Retiro a mão e esfrego a direita na esquerda. Aquilo não me satisfaz. Apanha pouco álcool. Peço-lhe para repetir quatro vezes. Ela corresponde aos meus pedidos e depois fica um bocado aflita com o ambiente dentro da cabina do lado dela, que quase a faz tossir.
Continuo a esfregar as mãos, mas não é de contente. É para ver se não penso nas moedas. E sei que ali não há sangue ou outra coisa. Mas estas cenas massacram psicologicamente. Ou seja, a fórmula é esta: ‘DIRECTA’+SURPRESA+RECEIOS=UM GAJO INIBIDO.
Espantosamente, nesta altura do campeonato acabo por abrir a braguilha e tirar o “El Negrito” com muito mais descontracção do que seria de esperar. Ainda pensei que ela fosse buscar a lupa do Sherlock Holmes ou se pusesse a gozar com a tonalidade amorenada do “El Negrito”. Não se passou nada disto. Ela olha para o Luisinho de forma natural e esforça-se por fazer um olhar libidinoso. Mas eu sei que é tudo teatro e saber que é tudo teatro também não ajuda nada a minha problemática elevatória.

(À mesma hora, a menos de 20 metros, na Calçada da Glória, um heróico elevador subia sem problemas as vezes que fossem precisas. E carregado de turistas)

Sinto-me um bocado como o Benfica, sempre que os jogadores vão actuar fora de casa: “Cheira-me que vamos perder...”.
A minha masturbação decorre tímida e desesperançadamente. Ela também se masturba e pisca-me o olho. Pisco-lhe também o olho.
— Um a um — digo eu.
— O quê?
— Um a um em piscadelas de olho.
A obrigação de defender a honra de Portugal não ajuda nada à situação. Se estivesse a jogar pelo Sporting não havia problemas. A derrota é uma coisa habitual, mas pela selecção...
Instintivamente, sei que aquilo vai dar em nada. Mas continuo a lutar meigamente contra as ondas, como um cocker spaniel que vê o dono a afastar-se do lar, saindo para o trabalho de manhã.
Acaba o guito. Por mim dava por finda a minha actuação, mas ela pergunta-me se eu não tenho mais moedas.
Mau! Figuras tristes já eu fiz. Tiro as moedas do bolso direito e tenho ainda trocos. Dá mais de três euros, mas em moedas pequeninas. Experimento com uma de 50 cêntimos e cai. Passo-lhe as moedas todas pela ranhura, ela sai e volta com uma moeda de 2 e outra de 1. Recebo com mão esquerda, tipo aleijadinho, para não conspurcar a mão do action man.
— Não tens o vibrador na bolsinha?
Tem. É um vibrador doirado, pequenino, tipo modelo banal, de grande consumo. Mas diz com a cor dos cabelos.
— Isso não é muito pequenino?
— Não gosto de muito grande.
Meteu o vibrador sem problemas. Devia estar previamente lubrificado. Ou ela se lubrificou um pouco com a masturbação. Ou a excita um bocadinho exibir-se. Ou é completamente parva e excitou-se com a minha falta de tesão, pelo insólito.
— Não ligas o botão da vibração?
— Queres?
— Quero, se tu quiseres. Estou um bocado inibido e não vejo isto nada encaminhado para ter uma erecção.
— És solteiro?
Digo que sim. Ela espanta-se. Eu espanto-me sempre com a capacidade das miúdas de leste se espantarem com o facto de ser solteiro. E a naturalidade de encararem o facto de fazermos coisas destas às escondidas da esposa ou da namorada, coisa que me choca.
— Tens namorada?
— Não.
— Porquê?
— Não calhou.

(N.A. – Não calhou, o caralho! Eu não sou um sedutor nato, muito menos pato de Varsóvia com laranja)

(Já houve umas experiências maradas, com muito mercurocromo num coração em chamas. Já apanhei as pecinhas todas do meu coração por muitas vezes. Como um puzzle de cristais Swarowski comprado em Amesterdão, para dar a uma Helena de Almada. Houve Patrícias (6 anos), Anas Marias (12), Rosarinhos (12), Paulas (13), Marias João (16), Paulas (19)...eu sei lá. E mesmo uma Alexandra que julgava que eu era gay. Ideia que nunca me tinha ocorrido.
Houve espanholas com quem estive de mãos nas mãos e olhos nos olhos — de verde peppermint —, italianas que admirei ao longe a passar como miúdas da Martini em roller-blades de Riccione/95... italianas simonettadas que regressaram à cidade Eterna...).

Sou bom gajo. Não vejo as mulheres como um pedaço de carne ou forte a conquistar. E isso inibe. Se fosse tarado sexual esgalhava ali uma num ápice. Lá fora o elevador da Glória sobe e desce. Eu, lá dentro, sem glória, mantenho-me coerentemente “piça-mole”. Não tenho fé. Sem fé não se vai lá. E não é por falta de prática. Ainda digo à menina:
— Se estivesses deste lado para me ajudar era outra coisa.

(Seria?)

Ela manda-me levantar. Baixa a sua cabeça. Põe-se com a língua muito próxima do vidro, a simular lamber-me. Pois. Aquilo não é o famoso “Plato’s” de Nova Iorque, em que se metia a sarda num buraco e alguém tratava do assunto anonimamente, do outro lado.
Quase me dá vontade de rir. Mas percebo que ela tenta a sugestão erótica. Profissionalmente, dá o litro para ver se eu arrebito. Ou talvez comece a encarar a situação como uma derrota pessoal.
Mas eu também não queria que não houvesse vidro. Os tempos não estão para brincadeiras.
É como ir ao zoo ver o pavilhão dos répteis. A gente sabe que entre nós e a víbora do Gabão há um vidro de segurança.
Aquilo para mim é Playstation 2. É virtual!
E ela:
— Diz a posição em que gostas mais...
— Sentada de pernas abertas, com o vibrador, até estava muito bem. Mas eu não estava preparado. Fiz uma “directa” e não pretendia vir para aqui masturbar-me.
— Porquê?
— Sou tímido. Só queria ver como era.

(N.A. - É verdade, mas não lhe ia dizer que estava a escrever um livro. Ainda parava tudo e pedia para eu ir buscar mais moedas)

Acabou o tempo.
— Vais voltar?
— Olha lá, já te tinha dito que não estou a ganhar um tusto no jornalismo.
— Não gostas é de mim.
— Gosto, sim senhor!

(Sou uma boa alma. Mesmo nas alturas em que fui copiosamente derrotado não resisto ao “fair-play” de moralizar o adversário)

— Não gostas, não!

(Ai, o caralho!)

— Já é a segunda vez que me chamas mentiroso. Eu sou um homem de palavra.

(N.A. - E sou. Pelos vistos, não sou é um homem de tesão. Muitos aranhiços no sótão, na hora de entrar em campo. Como um recordista ibérico de punheta que falha nas grandes competições).

— Diz lá, vais voltar?
— É muito pouco provável. Não há grande motivação.
— Vais voltar no Natal! Gostava que voltasses. Acho-te simpático, mas um bocadinho solitário.

(Vou, pois! Abraçado ao D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, ao som das guitarras do Grupo de Rock ‘Os Bandarras’).

— É muito pouco provável, como já disse.
— Então muito obrigada. Um bom fim-de-semana.
— Muito obrigado. Para ti também.

Saio da cabina com elevação. Dizia o anúncio que antigamente um homem se distinguia pela barba, pela espada e pela camisa. Eu distingo-me pelos sentimentos elevados.
Passo pela cabina do moço dos trocos com o ar de quem acabou de beber uma imperial no café da esquina:
— Boa-noite. Até à próxima.
Penso: será que a miúda vai contar que acabou de sair um “piça-mole”? Ou é um fait-divers que lhe passa ao lado? Não estou muito preocupado. Fui ao “Peep” em missão.
Mesmo assim saio vergado ao peso da derrota, apesar de não ser nada do outro mundo. Acho que os gajos fixes como eu pensam mais nas coisas e depois... nicles. É K.O. à partida.
Deixam um gajo “blue” à brava. Cheguei a casa, lavei as mãos, lavei a sarda com álcool (algo ritualístico, talvez a purificar-me da derrota, o que eu gramava mesmo era imolar um político e arrancar-lhe o coração num altar asteca), mesmo sem ter acontecido nada de especial.


22h30m - Saí para jantar. Estou a escrever isto sentado no átrio do Monumental, por baixo dos cinemas. Em folhas de papel.
Para esquecer a depressão, vá de mamar duas Carlsberg e duas Superbock pretas, enquanto escrevo. Quando chegar a casa vou-me fartar de beber água, para compensar. A minha úlcera por certo compreenderá as razões do tratamento de excepção.
Podia perfeitamente passar sem dizer nada disto ao leitor.Mas achei que se deve imprimir uma certa dose de realismo. Seria cobardia literária e pessoal não assumir tudo.
Afinal, que mal me aconteceu?
Nenhum. Apenas quero chegar a casa e esgalhar uma, para provar que está tudo normal em Cape Canaveral.
A vida é uma coisa muito complicada. Sinto a cabeça pesada da cerveja e da “directa”. E umas saudades de morte do meu cão “Beauty”, que morreu em 1984. Queria deitar-me no chão, ao lado dele, em frente ao calorífero, e fazer-lhe festas no peito, num dia de trovoada. Apertando-o tanto, tanto, tanto, para ele não ter medo...
É justo a morte apossar-se de nós, como quem conquista um castelo?
Uma lágrima quer cair-me do olho. Tenho de ir ao WC e depois sigo para o Pasta Caffé, para comer uma lasanha.
Queria tanto que o mundo se amasse!
São 23h25m.

4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Luís, vim aqui parar através do post de despedida do gandaordinarice, e li não só este post que comento mas os outros que estão abaixo, porque me captaram completamente a atenção os seus relatos tão realistas e ao mesmo tempo tão enriquecidos com pormenores deliciosos da melhor ficção. E acredite que não estaria a escrever isto se não tivesse reparado que neste nos outros posts todos existem zero comentários, facto que me deixou perplexo, e sobretudo muito triste.

Porque é enorme a quantidade de blogues cheios de comentários todos os dias, de gente que tem tempo para mostrar aos outros o lixo que deitam na net, comentários de treta que se tornam em diálogos, para dizer tretas uns aos outros, alguns armados em pensadores, intelectuais, outros simplesmente porque lhes parece fixe, outros sabe Deus porquê. Este é um país de escritores, e opinadores, e gente que come o que lhes é vendido o que é bom e aceitam-no de bom grado porque não têm um gosto próprio para fazer as suas escolhas. E o que vejo é que o seu trabalho simplesmente não é adoptado pelas pessoas, não é reconhecido, nem tão pouco publicitado, não esquecendo os grandes esforços que o seu autor leva continuamente, segundo os seus próprios relatos, para o divulgar. E é uma pena, sinceramente acho uma pena que não haja um único comentário em posts seus que eu acho terem um valor realmente admirável, e uma singularidade que não tem paralelo neste país. Andamos todos entretidos a ver gajas nuas na net e jogar playstation e esquecemo-nos de rir, esquecemo-nos da vida marginal, da cidade oculta na grande cidade, do relato jornalístico feito por prazer, com uma sinceridade por vezes arrepiante, que o torna, aos meus olhos, uma pessoa com um enorme coração, mesmo sem o conhecer.

Não venho aqui pedir-lhe para que continue, não venho dar-lhe mensagens de força e esperança, não venho prometer-lhe que vou comprar os seus livros de edição de autor porque sei que não precisa de nada disso para continuar, porque está-lhe no sangue escrever o estranho e maravilhoso mundo que o rodeia e que você próprio transforma e enriquece, com as suas palavras. Venho apenas criar um comentário, para que não seja mais um zero, porque ainda que não tenham sido zero pessoas a lê-lo, é triste que ninguém perca alguns segundos para dizer-lhe que gostou, que detestou ou que achou nojento. Eu, acho formidável, e acredito sinceramente que a sua luta solitária e verdadeiramente honesta ainda vai um dia colher frutos. Está na hora de pagar a quem realmente cria algo interessante e que alimenta boa disposição, e não quero com isto dizer que acho que você escreve umas piadas engraçadas e é tudo. Acho que você tem, em tudo o que escreve, uma habilidade inata para fazer a literatura marginal antiga, vernácula e pura, revestida dos elementos mais duros da sociedade, mas ao mesmo tempo coberta de um sentido humano e belo. Espero sinceramente que o seu reconhecimento esteja para chegar em breve, e que os zeros se tornem em casas das dezenas e das centenas, porque você tem o talento, e porque o merece.

Um abraço Luís

1:24 da manhã  
Anonymous luís graça said...

ddd

1:45 da manhã  
Anonymous Luís Graça said...

Experiência

1:46 da manhã  
Anonymous Luís Graça said...

Caro anónimo:
Como deve ter depreendido dos comentários anteriores, eu "andava às aranhas" com a caixa de comentários.Nem sequer conseguia postar um comentário, depois de terem mudado os itens que ela pedia. Após várias tentativas (iguais a outras anteriores infrutíferas) lá consegui.

Estava a custar-me não responder às suas palavras, que muito agradeço.

E olhe que o "Sexo na Noite" é real a cerca de 95%. Só troquei alguns nomes para proteger a privacidade das pessoas.

Era um projecto inicial da Oficina do Livro, mas depois desistiram dele porque não gostaram que eu tivesse utilizado o humor. E eu já estava com mais de um mês de diário e não podia começar tudo de novo. Depois o livro "encalhou" na D.Quixote.

Neste momento estou numa fase de "desaceleração", que é a atitude mais lógica. Já não tenho mais dinheiro ou paciência para andar a bater com a cabeça contra a parede. Nada arrependido de ter feito as edições de autor, mas perfeitamente consciente de que as paredes são muito duras e já não tenho mais vontade de continuar a dar com cabeça nelas.

A partir de agora, o que tiver de acontecer acontece.

E há alguns comentários neste "Sexo na noite". São poucos, mas existem.

Felizmente, tenho uma série de tertúlias em que posso trocar pontos de vista sobre literatura, por isso a Net é apenas um ponto de encontro. Com todas as vantagens e inconvenientes.
Mais inconvenientes do que vantagens.
Uma das maiores é o desgaste que pode provocar emocionalmente, porque há muita gente que ainda não compreende o verdadeiro significado da liberdade de expressão.

Sempre lhe digo que este "Sexo na Noite" (ou 'Diário Sexual de um Escritor Frustrado', que não passou nunca de um título provisório porque nunca se avnaçou para a edição) já foi escrito em plena "fuga para a frente", para tentar vender livros. Daí o sexo como chamariz. O mesmo acontecendo com o "Neura 2004" (Oficina do Livro) e o "Fado, futebol e farpas, uma aventura psicadélica" (edição de autor), que saíram por alturas do Europeu 2004 e do Mundial 2006. E resultaram de um desafio feito por um amigo (o primeiro) e de um convite de uma editora (o segundo). Depois,a pessoa que me convidou entrou em colisão com a editora e demitiu-se.

O que sei é que vou continuar a escrever poemas.Isso é absolutamente incontrolável. E crónicas para a revista "Os meus livros". Enquanto me pedirem.
Quanto ao resto, não sei. Nem isso me causa qualquer tipo de mágoa.
Para mim é muito mais importante ler do que escrever.

Hoje foi um dia muito gratificante em termos humanos. Participei num torneio de ténis de mesa na Escola Eça de Queiroz em que homens e mulheres se defrontavam, de todas as idades. É um extraordinário motivo de convívio e um magnífico "aquário humano".
Foi uma grande fonte de prazer.

Grande abraço.

2:05 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home