domingo, janeiro 27, 2008

15 de Dezembro de 2004

Eu, o 69, a Tackifire Special, os Evangelhos,
o carro roubado e abandonado, os private do “Nocturno 76” a 40 euros, a puta que me acha giro, os putos do MRPP a pintar paredes e mais o diabo a sete.


16 horas - Saio da cama. Ontem tomei dois kainever para dormir. Estava nos limites do esgotamento. Não conseguia escrever uma linha do diário. A sequência de dias com sonos trocados era esta: uma directa, uma noite em que dormi três horas, mais uma noite em que dormi duas horas e picos. Não dava para mais uma noite assim. Sentia-me exausto e fui para a cama dormir. E o problema não é adormecer, nesta fase do esgotamento. Adormeci lindamente. Mas acordei passada hora e meia. Sabia o que tinha a fazer. Hoje tinha pingue-pongue e não podia ir para lá a abanar. Tomei dois kainever e nem liguei o despertador. Tocou às 14 e 30 (estava marcado para aí, já nem me lembro porquê), saí da cama às 16 horas. Dormi bastante, mas o barulho do escritório começou logo a incomodar-me. Não quis perder tempo a tomar banho, senão falhava o lançamento do livro coordenado pelo meu camarada de noites galetianas, Sousa Machado. Tinha o cabelo todo no ar. A solução foi pôr um bocado de gel “Carpe Diem”, da Boticário, mas o meu dermatologista disse para eu não abusar do gel, que cria um micro-clima. É por isso que eu só raramente tempero o cabelo com gel. Sempre fica um clima mais temperado.

18h45m - Chego ao Centro Nacional de Cultura, mas já não consigo dar um abraço físico ao Sousa Machado, que está na mesa do lançamento do livro sobre os Evangelhos, como é óbvio. O lançamento deve ter começado a horas. Está a abarrotar de pessoas. Só consigo passar para o varandim. Passado um bocado, outro camarada das noites galetianas junta-se-me e dou-lhe um cartão de visita para ele entregar ao Sousa Machado. Só para dizer que estive presente em corpo e espírito, mas tive de me pirar para o pingue-pongue.

19h15m - Estou a subir para o Largo da Misericórdia, para apanhar um táxi. Se apanhasse no Chiado podia ficar logo engarrafado. Passo ao lado do Trindade. Zóing! Ideia: comprar bilhetes para o espectáculo do Tochas, que esgota à brava. Não está ninguém na bilheteira, tirando a senhora da bilheteira, que é uma simpatia. Compro o bilhete para sábado (7 euros, com desconto de sócio do Inatel), dia 22 de Janeiro. E já sobravam só dois bilhetes. O gajo esgota com uma facilidade impressionante. Mas o gajo é bom e já andou por aí a penar. O cabrão do chaval de Avelar (peço desculpa pelo chaval, que o man já vai nos 32 ou 33, não sei ainda quando sai este livro) merece ter êxito. Por algum motivo é popular em todo o mundo.

(Pode ser bom na cama, pode ter um ar simpático, podem ter pena dele, pode ser porque é português, pode ser porque faz bem de mimo, pode ser porque nasceu de cu virado para a lua e ter a sorte da lua não lhe ter ido ao pacote)

19h30m - Chego ao Inatel e vou equipar-me. Lavo a cabeça com água fria, para ver se atino. Ainda estou um bocado zonzo dos dois kainever. Com a conversa nos balneários e o tempo que levo a equipar-me (que é bastante, uso duas coxas elásticas e dois pés elásticos, por causa das lesões que já tive) só chego à mesa às 20.05 horas, mas eu sou apenas o terceiro a entrar em acção.
Cumprimento o meu colega de grupo que não está a jogar. Está sentado num colchão a ler “A mãe”, do russo que é o máximo.
— Isso não é um bocado forte antes de jogar?
— Por acaso é um bocado depressivo.

20h32m - Sou chamado para jogar com o Marques. Perdi sempre com ele, mas da última vez estive quase a ganhar. Cheguei a estar a vencer por 2-0 (em sets) e desperdicei match-point para 3-1, se não me falha a memória. Desta vez, está quieto, ó preto. Mudei de borrachas e a adaptação tem os seus quês. Resultado: 3/11, 3/11, 11/9 e 4/11. O terceiro set é que é o mais normalzinho entre nós. Mas se sabia perfeitamente qual o comportamento do revestimento Butterfly Tackiness Drive (na sua máxima pujança de estar novinha), ainda estava em pleno período de estudo do revestimento com que nunca tinha jogado, a Butterfly Tackifire Special de 2 milímetros, que é super-explosiva, mas mais difícil de controlar do que a minha anterior Tackifire Drive ou mesmo a Sriver S ou Sriver L. Ainda experimentei pôr uma FX noutra raqueta de 1975, mas as madeiras eram más e eu não tinha vida para aquilo. É só mais uma raqueta para andar no saco, para mostrar aos amigos:
— Olhem uma Butterfly Slazenger que me custou 275 escudos em 1975, com revestimentos de Butterfly Sriver FX preta e Butterfly Tackifire Drive vermelha.
— E jogas bem com isso?
— Não. Ia perdendo com um dos piores jogadores do Inatel. As madeiras são muito antigas e não consigo jogar bem com esta raqueta.
— Mas ainda gastaste uma pipa de massa nas borrachas, ou não?
— Pois gastei. Mas não achas que um primeiro amor (de raqueta) merece uma segunda oportunidade, nem que seja décadas depois?
— Mas essa raqueta foi o teu primeiro amor?
— Foi. Tive uns “flirts” com uma Vic verde de 75 escudos, com uma Sunflex azul de 59 escudos. Mas amor a sério foi com esta Slazenger. O Maio (Maio é o nome do gajo, não é mês, uma espécie de herói da turma e já atiradote com as miúdas, apesar dos 11 anos) tinha uma namorada igual e eu fiquei apaixonado por uma gémea da raqueta dele. Tinha cabo envernizado, com o símbolo da pantera com rabo cheio de tesão. Ou é a Puma que tem o rabo levantado? Acho que é a Slazenger...

Agora, com os dois revestimentos comprados na Patacho, mas as películas de protecção, mais duas caixas de bolas Tibhar de três estrelas e 40 milímetros, o dinheiro que gastei foi... 69 euros.
Não acreditam?
Foi, sim senhor, caralho! Ficaram de me mandar a factura.
E o bilhete para ver o “Bartoon” tinha o número 69. Foda-se, é verdade!
E ainda tenho mais um 69 na minha vida. Foi na primeira terça-feira do mês. A filha da Carla, do restaurante “Gina” (porra, é mesmo o nome do restaurante, sei lá se a D. Gina é leitora da revista, deve ser mas é por causa do nome da dona, olha que caralho) andava a vender rifas para o cabaz de Natal lá do liceu e eu escolhi a rifa 69. Porque sim. Mas os outros dois são perfeitamente casuais. E o Pedro Mexia pediu-me para lhe comprar uma revista de automóveis e eu comprei o MaxTunning número 69. Mas só depois é que vi o número. É muito 69 na minha vida.

(Anedota brejeira: um clássico. ‘Um amigo meu não gosta de 69 porque não quer nada que o distraia enquanto faz minete’.
Uma história destas, noutro livro qualquer comprometeria irremediavelmente a qualidade da obra, neste não faz diferença nenhuma)

21h30m (mais ou menos) - Vou jogar com o Lemos, a quem venci sempre. É dos tipos mais simpáticos do pingue-pongue do Inatel e isto não tem nada a ver com o facto de eu lhe ganhar. O Adelino dos CTT vê-me perder o primeiro set por 11-4 e vem saber o que se passa.
— Estou a experimentar a Tackifire, ó Adelino. Daqui a bocado meto a Tackiness Drive e ganho 3-1.

E assim foi, mas com parciais muito equilibrados. O Lemos já tem dado dissabores a tipos que me ganham. O pingue-pongue é muito giro. O meu amigo Jorge Roxo é mais jogador que eu, mas eu posso até aviá-lo grandemente num dia mau do rapaz. Este ano ele vai ficar uns 20 lugares à minha frente, o ano passado foi o contrário.

23h15m - Estou a acabar de me vestir, já depois do banho, nas calmas. É a primeira vez que fico sozinho nos balneários do Inatel, depois dos jogos. Isto é que é qualidade de vida, melhor do que no Holmes Place. O vapor já se dissipou, o espaço todo só para mim, um consolador silêncio, todo o tempo do mundo para me vestir e tomar banho.
Mas... estão tipos lá fora! Queres ver que são os empregados a controlar-me? Mas porquê? Ainda faltam 15 minutos para o horário de fecho!
Olha, são dois tipos de bidão exterminador em punho, que vêm dar caça às baratas. Em 15 anos de Inatel, ainda não tinha levado com um número destes. Quando o Paiva (da Marconi), me disse “Vê lá se te despachas no duche, que vai haver desinfestação de baratas” pensei que era no gozo.

O Paiva (da Marconi) é um ganda bacano. Tal como o Caetano (da Marconi), que é o famoso Marconi Caetano que entra no conto “A mansão das mil folias” do livro “Neura 2004”. Desta vez o Marconi Caetano chegou ao Inatel ligeiramente tocado, para me substituir de bêbedo de dia. O Balseiro (da Marconi) também é um ganda bacano. Na Marconi são todos bacanos. E ganharam-me sempre sem espinhas. Estão a ver como tenho “fair-play”?
Uma vez, no campeonato por equipas (o Carlos ainda jogava comigo e com o Roxo), o Paiva chegou ao Inatel e disse-me:
— Vá, menino, vamos lá embora a despachar isto que o Sporting dá na televisão e eu quero ver!
Eu ri-me. Ora bolas, o jogo era dali a 45 minutos. Certo que nós íamos perder, mas também não convinha exagerar o tempo da derrota. O Carlos, que jogava mais que eu e o Jorge e era o depressivo-defensivo da equipa (eu e o Jorge ainda hoje somos maníaco-ofensivos), costumava dar luta ao pessoal quase todo.
Pois é.
Perdemos 5-0 num ápice. E os tipos da Marconi ainda davam umas bolas de amizade, para nós fazermos 11 pontos e não levarmos capote. Na altura os jogos eram até aos 21, com bolas de 38 milímetros. Quem não sabia fica agora a saber que as bolas aumentaram para 40 milímetros (faz diferença, podem ter a certeza) e os sets vão só até aos 11. Mas joga-se à melhor de cinco sets, em vez de três sets.

(Está? Luís Graça? É o editor. Como vai, está bom? Olhe, é para lhe dizer que o livro deve escorrer sexo. Não perca tempo com pingue-pongues. Depois o livro fica grande e o senhor queixa-se quando não lhe editamos as obras. O quê? Se entrar o pingue-pongue do Inatel são mais 200 potenciais compradores? Mas o senhor garante-me isso? Ah! o Caetano da Marconi comprou o Neura-2004 só por entrar nele... e o Damásio Caeiro anda na Faculdade de Letras e interessa-se... e um dos árbitros anda sempre na Feira do Livro e nas Livrarias... e outro árbitro até queria ‘As mulheres não gostam de foder’ do Alvarez Rabo, autogafado... bem, sendo assim, o senhor não encara a hipótese de fazer um segundo volume versando o sexo no ténis de mesa do Inatel? Não há, que o senhor saiba... que pena... mas tanto homem nu no balneário... nunca se apercebeu de nada... que pena... sim, às vezes tratam-se por ‘ó paneleiro’, mas é na brincadeira... que pena...)

RED ALERT: O COMPUTADOR INFORMA QUE O LIVRO VAI NOS 300 MIL CARACTERES, MARCA RAZOÁVEL PARA VENDER UM LIVRO.

Ai, ai, ai... e agora, o que faço?
Bem, vou saltar uns dias. Só posso. E resumir ao máximo. Ainda me faltava fazer tanta coisa interessante. E tenho o “shower dance” de dia 23, não fui ao “Avião”, ainda não falei dos filmes porno do Frota (tenho cinco revistas só com a intrigalhada à volta dele, já com sublinhados), sei lá, tanta coisa...
Vou tentar não passar dos 320 mil caracteres...

(Dick Hard — Ó meu, nem em sonhos...
Luís Graça — Pronto, está bem... 350 mil.
Dick Hard — Vão-te obrigar a cortar, na editora.
Luís Graça — Cortam mas é o caralho!
Dick Hard — Desde que seja o teu, que até é minorquinha!)

01h20m - Ando à volta da Gulbenkian, a desmoer o jantar. A polícia está parada com um reboque, ao pé do monumento ao Azeredo Perdigão. Está lá abandonado um carro roubado. O assaltante ia sendo apanhado. Fugiu a pé.

02h10m - Páro de dar voltas à Gulbenkian. Toco à campainha do “Nocturno 76” e pergunto se há réveillon planeado. O porteiro não sabe. Mas sabe o preço da private dance (40 euros). Agradeço e bazo.

02h15m - Vou contar putas ao Técnico. Primeira volta: 16-1, ganham as pedestres em relação às auto-putas, obviamente. Segunda volta: 18-1. Uma loja de automóveis na Rovisco Pais tem dois Jaguares fabulosos na montra. Um branco e um preto. Um pouco acima, a preta que me disse “Eu trabalho” (ver princípio do livro) continua com um aspecto que ninguém diria de puta. Está escondida nas sombras de uma entrada para garagem.
Pouco depois apanho um diálogo giro na esquina. Não sei o que motivou uma frase, mas uma puta branca diz que os clientes de uma carrinha branca grande:
— Na pensão também há WC...
(Qualquer coisa que não percebi)
— Em cima do bidé...

Esta puta é bem disposta e deve achar-me giro e educado. Conhece-me de vista e sabe que não sou potencial cliente. Mas tem pena. A avaliar pela frase que ouço dizer às duas colegas, enquanto me afasto, já na segunda volta:
— Ainda o mando parar e digo: ‘Leva-me a casa’.
Estou convencido que ela não pensou que eu ouvisse. Mas há uns meses, vinha eu do kick-boxing com o Gastão Salvado, já tinha mandado umas bocas simpáticas, a atirar o barro à parede. Eu e o Gastão a caminho do Galeto e lá vieram as bocas, suave e educadamente, falando dos jornais que eu trazia debaixo do braço, salvo erro o ‘Record’. E o Gastão:
— Ó Luís, acho que elas estão a meter-se connosco...
Pois estavam. Mas eu e o Gastão fomos para o Galeto meter... qualquer coisa no bucho, depois da porrada. Apesar de tanto eu como o Gastão gostarmos de comida, porrada e sexo. O Gastão gosta mais de comida. Eu é de sexo. Porrada só gostamos de ver, sem praticar.

02.25m - Na parede do Técnico estão a pintar um mural. O símbolo com a foice, o martelo e a estrela já lá estão. Três chavais dos seus 20 anos dedicam-se à tarefa. O que pinta está em cima do capot do automóvel do amigo. Já leio: “O Gov...”.
Vou-me aos putos e pergunto:
— Bem, já que estão na primeira demão, dêem-me lá a frase em primeira mão!
— “O governo já está. Faltam as propinas”.
— Obrigado. Olhem, o Garcia Pereira foi meu professor na Faculdade. Boa noite.
— Boa noite.

05h08 - É a hora actual. Vou imprimir estas folhas, guardar na diskette, um pulinho ao hotmail, a ver se há mensagens, abrir as cartas do dia (tenho carta da minha amiga Dolores, que me chama pen-friend), espreitar os jornais e... dormir? Espero que sim. E sem bombas. Caso contrário... ou é mais uma directa de esgotamento/insónia ou lá vai bomba.
E estou-me a poupar. Ainda nem escrevi no diário o concerto dos 20 anos dos Ena Pá, que já foi no dia 30 de Novembro.

2 Comments:

Blogger Capitão-Mor said...

Notícia off the record, meu caro amiigo. Em Junho estarei de regresso ao Reino. Depois convido-te para tomar um copo...

9:04 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

OK. Bom regresso ao reino.
Terei todo o prazer em tomar um copo contigo.

1:38 da tarde  

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