domingo, fevereiro 04, 2007

10 de Outubro de 2004

No S. Jorge, com a Breillat

Deito-me mais cedo do que habitual na madrugada de sábado para domingo e não passo cartucho ao GP de F.1, transmitido às 7 da matina. Quando me levanto, como um iogurte e vou nadar um cochinho para o Holmes Place.
Depois almoço e ala para o S. Jorge, para a festa do cinema francês. Compro um bilhete para o “Podium”, do Yann Moix, com o Benoît Poelvoorde, que vi no magnificente “Manual de instruções para crimes banais”, há uns bons anos, no King Triplex.
Na banca dos livros está uma obra que me interessa: “Les films-clé du cinéma” (Claude Beylie, Larrousse). São 32 euros, mas vale a pena. Vou ao multibanco e compro. Ao dar a volta por trás do Tivoli descubro uma casa de strip onde nunca fui, o Sampayo, do mesmo patrão do Nina.
Regresso ao S. Jorge e fico a ler na varanda o “24 horas”, que tem na capa a Marisa Cruz, a dizer bem do João Pinto. Como ser humano. E a fechar-se em copas, no corpo da entrevista, por já estar escaldada.
Finalmente, chega a hora do aguardado “Sex is comedy”, da realizadora-escândalo Catherine Breillat. Estou muito curioso de a ouvir. O filme é bom, superiormente interpretado pela Anne Parillaud do meu contentamento. A Anne Parillaud que vi pela primeira vez a contracenar com o Alain Delon (numa cena de cama muito meiguinha), que depois segui como a assassina de Nikita, como vampira em Nova Iorque e sei lá mais onde. Bref: gramo da gaja bué.
O filme expõe de forma conseguida várias questões candentes do cinema: a relação entre realizador/actores, a encenação, as relações de poder. É uma ficção quase documental, com muito de autobiográfico. No final da película, Catherine Breillat ficou a falar para uns 60 espectadores. Os outros viram o filme e foram-se embora. Bastantes abandonaram o S. Jorge durante a intervenção da realizadora. Acho estranho e um grande desperdício. Não é todos os dias que se pode falar com ela.
Se o seu cinema enumera questões cruéis, ela é bastante dócil na comunicação, mas tem um discurso paradoxal. Considera-se fria e racional como realizadora, distante de tudo, mas ao mesmo tempo acha que o cinema é paixão e a paz é boa para quando estivermos mortos. Não acredita na harmonia do plateau entre actores e realizador, mas acaba por conseguir ser amiga dos seus actores, depois de ter concluído os filmes. Faz mesmo algumas analogias entre um actor e um cavalo de corrida. Acha que tem de os espicaçar para tirar o melhor deles.
No entanto, está recheada de dúvidas cada vez que vai filmar e tem dias em que pensa que não sabe nada de cinema.
Para si, mais do que o cérebro, a verdade é o corpo. Assume uma problemática interessante em relação ao macho, num dilema paixão/rejeição, num mundo que considera machista e que lhe colocou bastantes entraves no início da carreira. É peremptória quando afirma que a relação entre uma realizadora é sempre melhor com as suas actrizes.
E depois disto tudo, e de termos visto o filme, ela ainda acha que falou em abstracto e que não há nada de voluntariamente autobiogáfico. Mas eu não fico nada convencido. Choca-me a visão soturna da vida que ela tem e que aceita com um ar muito natural. Percebo, depois de a ouvir, muita da violência dos seus filmes. E fico assim a modos que.
Subo a pé pela Av.Liberdade e desemboco no Galeto para um jantar tardio. Depois perco-me na conversa com os tertulianos do costume e quando dou por mim são 3 da manhã. Ah! pois é.

2 Comments:

Blogger Capitão-Mor said...

Cuidado com esses jantares no Galeto! Da última vez que lá entrei, houve um velho que me pediu para lhe atar os sapatos porque não consegui dobrar a espinhela! :)

10:12 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

Obrigado pelo aviso, mas eu nasci a 50 metros do Galeto, onde era a Maternidade Pro Mater, já demolida.
É quase como regressar ao ventre materno.
No Galeto encontra-se de tudo. Por isso mesmo, conta muito a experiência de anos e anos a frequentar o Galeto.
Este ano até houve baratas de segunda geração (segundo a ASAE) para animar a festa.
Mas tudo voltou ao normal. No Galeto promove-se o encontro de jornalistas, gestores, advogados, meninas da vida portuguesas e estrangeiras, strippers, dramaturgos, poetas, funcionários públicos, futebolistas, economistas, taxistas e muitas outras figuras da soeciedade lisboeta.

4:58 da manhã  

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