domingo, fevereiro 18, 2007

13 de Outubro de 2004

Fornicanços portugueses e masturbações islandesas

20 horas - Estou no Atrium Saldanha, na Loja do Boticário, a recolher a encomenda de quatro embalagens de shampoo “Universal Colors”, maciez e brilho, tons grisalhos a brancos. Podem pensar que é uma mariquice da minha parte, mas sempre quero ver se ainda têm vontade de rir se eu vos disser que o Universal Colors contém extracto de açaí e menta, com pró-vitamina B-5. Ai agora já não gozam?
Estão roxos de inveja? Acho muito bem, porque é a cor do shampoo.

20h30m – CC Arco-Íris. Livaria. Compro o número dez da revista “Ficções”, inteiramente dedicada aos contos. Sou um militante desta revista, que já devia existir há muitos anos. Vivam os contos, como género maior da literatura.

21h15m - Estou em casa, para seguir o Portugal—Rússia, sem fé nenhuma numa vitória das cores lusas. Em Alvalade estão 25 mil almas, abaixo do esperado.
Afinal, fornicámos os russos à grande e à francesa, por 7-1, resultado que me deixa o coração embevecido de ternuras, como sportinguista. Houve grandes golos para todos os gostos, mas a verdade é que os lusitanos tiveram a sorte do jogo. O primeiro golo é precedido de fora-de-jogo e depois os ventos sopraram a nosso favor. Parece que todas as que lá iam entravam. Até o golo russo é bonito.

23h30m - Saio de casa, rumo ao Quarteto, para ver um filme que me escapou no festival “Indie 2004”. Como me tenho dado bem com o cinema nórdico, quis ver o “Nói, o Albino”, do nosso amigo Dagur Kári.
Na zona do Campo Pequeno começo a cruzar-me com malta que vem de Alvalade, de cachecóis e bandeirinhas. Desta feita, apesar dos 7-1, não se ouvem os carros a apitar e não há manifestações de histerismo e atrasadice mental, como durante o Europeu. Ainda bem. Todos os adeptos com quem me cruzei tinham um ar normalíssimo. Constato que havia muitas miúdas entre os adeptos, tipificados, pela amostra, nos seguintes espécimes: grupos de amigos na casa dos 20/30 (machos); grupos de amigos na casa dos 18/24 (machos e fêmeas); famílias (pais com filhos, machos e fêmeas).

23h55m - Chego ao Quarteto e compro um bilhete. Recebo duas senhazinhas diferentes do habitual. Agora são assim a modos que talãozinho: Castello Lopes-Cinemas. Socorama, S.A. Nói, o Albino. Sala 2, 00.00h. Sem lugar marcado. Preço: 4.50 Euros. Normal.
Quando começa o filme estou sozinho na sala. Depois entram uma menina e um menino. Não há trailers e começamos logo a levar com o gelo e a neve daquele fiorde islandês. Saco um panfleto de propaganda que diz assim:
“Será que ele é o tolinho da aldeia ou um génio disfarçado? Nói, 17 anos, desliza pela vida num fiorde remoto no norte da Islândia. Sonha em fugir desta prisão de muralhas brancas, com Íris, uma rapariga da cidade que trabalha na bomba de gasolina local. Mas apenas um desastre natural poderá arruinar o seu universo e oferecer-lhe uma janela para um mundo melhor”.
Mais abaixo, o panfleto fornece-nos o que, no Propedêutico, chamavam uma dádiva cultural: a Islândia é a segunda maior ilha da Europa, depois do Reino Unido. Esta massa de terra tem 65 milhões de anos e teve origem na deriva continental.
O melhor do panfleto é mesmo um conjunto de dez frases em islandês, algumas retiradas do filme, como esta: Hvad fróar thú thér oft? Ora, para os mais estúpidos (as), sempre vale a pena traduzir: masturbas-te muitas vezes? A frase “não percebo” é muito gira em islandês: Ég skill ekki.
No DN, o E.B (Eurico de Barros) disse que se vê muito bem o filme durante meia-hora, mas depois chateia. Vi até ao final com gosto. O Luís Miguel Oliveira (PÚBLICO) considerou escapatório, dentro do género menor. Por mim, venham mais. Continuo cliente do cinema nórdico.
Ainda por cima, recuperou para a minha nostalgia coisas como o Master Mind, o Cubo de Rubik e o View-Master.

01h30m - Saio do cinema à frente do casal de amigos, que se queixam do frio, pois estão ambos de T-shirt. O termómetro da Av. Roma marca 15 graus, mas está bastante húmido. Considero-me um ser inteligente, por ter saído com blusão e écharpe.
A meio da Av. Roma (deserta) ouço música dos Beatles. Passados uns segundos identifico um morador jovem a ouvir o Rádio Clube Português, num primeiro andar. A música era o “Ticket to ride”.
Venho para casa pelo Técnico. Hoje só havia quatro auto-putas. A primeira que identifico está a falar com uma puta pedestre. Diz a auto-puta: “Ela tem uma casa arrendada em Benfica. Essa é que está bem”.
Mais acima dou com a auto-puta das válvulas desreguladas, que mudou a cor do cabelo. Nem de propósito, está a falar com um senhor que aparenta intimidade com ela. E diz ele: “É o que te digo. Se fosse a ti comprava já outro automóvel. Esses modelos têm tendência a dar problemas. E quanto mais tarde pior”.
Não percebo nada de automóveis, mas o carro até é bonito e parece novo.
No jardim da Casa da Moeda, um desalojado dorme com plástico por cima de si. Na esquina um mupi publicitário deixa-me sem fôlego. Uma menina de DIM oferece uma maçã verde roída a um pitão reticulado. Slogan: O verdadeiro jogo é o da sedução. Se não é assim, é parecido. Na Miguel Bombarda, ao pé da Embaixada do Chile, está outro mupi. Desta feita a menina é uma fenomenal morena, envolvida por uma série de homens.

02h15m - Abro a TV e ponho-me a fazer zapping, enquanto como dois brioches com fiambre. Dou com o Brasil-Colômbia, qualificação para o Mundial. Deixo-me ficar pela Sport TV, pois o jogo está interessante. Ronaldinho e Ronaldinho Gaúcho vão por ali fora, mas os colombianos aguentam o empate a zero. Há uma bola que bate na trave e entra, mas o árbitro não viu, para desespero da assistência do Estádio Rei Pelé, em Maceió. Sou muito ignorante. Não sabia que havia um estádio com esse nome em Maceió. E não reconheci ninguém na assistência, eu que até conheço tanta gente. Volta e meio dou um pulinho ao canal Holywwod, onde o Max Von Sydow e a Julie Andrews têm todo o aspecto de estar a converter almas na Polinésia.

04h10m - Ponho-me a ver as mensagens no Hotmail e tenho aquilo já a vermelho, com um aviso de estar quase no limite. É mesmo preciso apagar as mensagens todos os dias. Recebo uns mails com bonecada. Um com montagens, a propósito do tema: como seria, se o Iraque ganhasse a guerra. Outro com imagens tiradas de uma revista porno ou coisa assim. Mas é uma produção cuidadíssima. Duas meninas nuas na sauna, com língua na coisa, vibrador na coisa e beijinhos entre elas.
Agradeço ao amigo que me enviou e explico que retiro os insultos mentais que lhe prodigalizei, quando vi que tinha a caixa cheia de tretas. Logo a seguir apanho um mail mais porco, mas ainda assim interessante pela ideia: uma menina toda nua simula um parto com um bebé de plástico. Primeiro só se vê a cabeça do bebé a sair dela. À medida que vamos correndo o mail para baixo percebemos que ela conseguiu meter o bebé de plástico todo dentro dela. É artista!

2 Comments:

Blogger Capitão-Mor said...

Este seu texto faz-me recordar os primeiros meses, após a minha chegada ao Brasil. A notícia da vitória por 7-1 (resultado mítico para um sportinguista como eu) sobre os russos mas já com a nítida sensação que me era uma realidade distante....

Também me recordo de ter assistido a esse jogo do Brasil em Maceió, outra cidade nordestina que fica ainda bastante afastada daqui.

7:49 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

Pois é, sportinguistas e benfiquistas nunca hão-de esquecer esse resultado. Um amigo meu sportinguista, directamente oriundo do estádio de Alvalade, entrou no extinto clube "Os Ases das Avenidas" (de que éramos sócios) com uma mão aberta: "Dêem-me outra mão, que esta não chega!".

Quanto ao "Nói, o Albino" já está agora numa espécie de saldos, em DVD. Passou ao lado da cinefilia nacional, como é normal com o cinema nórdico.

9:33 da tarde  

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