terça-feira, março 06, 2007

16 de Outubro de 2004

Viva o Benfica!

Os meus projectos para este sábado consistiam em ver o Sporting com os austríacos (andebol), pelas 15 e 30, no pavilhão do Casal Vistoso; o Benfica-Paço D’arcos (hóquei) e o Benfica—V. Guimarães (vólei), na Luz. Como fiquei na cama até tarde (estive a escrever de madrugada um poema sobre o “Cânticos dos Cânticos”, para uma compilação organizada pelo meu amigo Gonçalo Salvado) nem sequer vi o Sporting na TV. Soube depois que os “leões” seguiram em frente, o que nem me espantou, visto que já tinham triunfado fora.
Almocei em casa e segui depois até à Luz. Agora o pavilhão do vólei foi baptizado de Açoreana Seguros, o que pode provocar trocadilhos que doam aos benfiquistas, em caso de derrotas.
Andei um bocado à toa para dar com o acesso ao pavilhão, pois saí do táxi no topo da Rua dos Soeiros, como fazia sempre. Depois fui por ali abaixo e tive um bocado de dificuldade em orientar-me. É muito cimento, muito descampado, muito betão à vista, muita luz, muita megastore. E pouco projecto urbanístico com o Belo por prioridade. Os estádios de futebol são hoje bocados de estruturas, com publicidade a grandes multinacionais. Deixaram de ser espaços de convívio e aventura do espírito. O do Benfica não foge à regra. Basta ver onde deixaram a estátua do pobre Eusébio, com vista para nada, entalada entre carros que estacionam onde couberem.
Chego ao pavilhão a poucos minutos do início do jogo de estreia do campeonato de voleibol. Os fiscais pedem-me a identificação, apesar de já me conhecerem há uns 20 anos. Têm dificuldades em compreender o estatuto de freelance. Depois tomam nota dos números do cartão do CNID (Clube Nacional de Imprensa Desportiva) e da Carteira Profissional e eu lá entro.
Subo o mais possível na bancada e mesmo assim ainda me sinto baixo. O vólei é das modalidades que gosto de ver de alto. Mas o pavilhão (arranjadinho, arrumadinho) é muito “british”. Está com o público muito em cima do campo.

Os espectadores são quase os mesmos do pavilhão do Casal Vistoso, onde o Benfica jogou a época passada. Não chegam às duas centenas. É tudo malta da família do voleibol: jogadores, treinadores, dirigentes, seccionistas, familiares e amigos dos jogadores.
Fico triste. Agora que o Benfica assume a candidatura ao título, ainda não há espectadores para encher o pavilhão? E não houve sinergia hóquei/voleibol, já que o hóquei se disputou pouco antes?
É claro que não. O povo não tem cultura desportiva e já está a pensar no Benfica-FC Porto do dia seguinte, em futebol, e das guerrilhas verbais do costume. É óbvio que se o Benfica disputar o título vai haver gente pendurada por todo o lado no pavilhão de voleibol, no jogo decisivo.
Bem, para resumir: o Benfica lá ganhou por 3-1, com parciais equilibrados, com uma excepção.Não me lembro dos parciais. Isto não é jornalismo, é literatura.

(Nota do Autor — Será mesmo literatura? Com um bocado de boa vontade será literatura epistolar... mas a verdade é que este diário não é escrito para ninguém em especial... ainda pode ser considerado literatura epistolar? E os vários registos, desde o coloquial ao vincadamente literário... não retirarão dignidade à prosa? Mas qual dignidade?!?)

O grande atractivo do encontro era avaliar das novidades em cada equipa. No primeiro “set” os encarnados andaram mesmo à toa e o Vitória dominou, porque o Benfica não atinava com a defesa baixa e o distribuidor (o Adriano Carneirinho, ou Lamb) via-se grego para dar jogo em condições. Depois as coisas mudaram de figura e o Zé-Tó Jardim lá deve ter convencido as enormes “vigas” do Benfica de que voleibol era mais do que bater na bola com força e velocidade. Porque o Dudu, o André França e o Renato Júnior estavam a abusar do estilo “é mesmo à canzana, senhor Gungunhana”. Aquilo era “vai buscar Tibi e não se pensa mais nisso”. Depois veio ao de cima a qualidade de jogo do André Lukianetz, que não é muito alto, mas “flutua” no ar, apesar de estar a saltar antes de tempo. O que é compensado pela impulsão e explosão do remate.
Saio do pavilhão e recebo uma mensagem do meu amigo Juvenal, que esteve a ver o hóquei em patins do nosso Sporting. É mais uma preciosa vitória, sobre o Cambra, por 3-2.

22h30m - Estou na FNAC Colombo, a ver as novidades. Compro o último Steven Saylor. Adoro policiais romanos. Adoro mesmo, tia! São o máááximooo!
Também compro uma agendinha da teNeues para 2005. Mantive-me fiel ao Monet nos últimos anos, mas desta feita aposto no James Rizzo. Não faço ideia quem seja o pintor, mas gostei dos bonecos. Agora é só investigar no Google e decorar meia-dúzia de coisas sobre o homem. Mais tarde ou mais cedo há-de haver uma miúda curiosa com a minha agenda e eu aproveitarei para mostrar erudição, com um ar muito natural.

23h - Fui comer ao Pasta Caffé. Está quase vazio.
Regresso a casa e resolvo dar uma volta ao Técnico, para contar putas. Não é que me apeteça especialmente, mas começo a perceber que já é uma tradição deste livro. Aqui vai: 13 pedestres, 2 auto-putas. A notícia da noite (perto da 1 da manhã) é que do lado do Instituto Nacional de Estatística estava um potencial cliente de cócoras a falar com uma auto-puta, agarrado à porta do carro; do lado da Rovisco Pais estava a miúda da camisola à Feyennord de cócoras, a falar com dois potenciais clientes, num carro. O que é que lhes deu para adoptarem a posição preferida dos treinadores de basquetebol?
Em casa tomo uma chávena de chá e ponho-me a fazer zapping. No canal 18 estão no truca-truca, para variar. O Hollywood está a dar um filme com o John Wayne, o Ben Johnson e a Ann Margret. Nos outros canais está a Elle McPherson a fazer de fufa e mais uma data de cenas.
Venho para o computador. Quase não tenho mensagens no Hotmail. Escrevo o diário. E são 4 e 9 da madrugada. Ainda nem comecei a ler os jornais. E amanhã (que digo? daqui a bocado...) tenho de me levantar, para ir a um baptizado.

6 Comments:

Blogger Maríita said...

Conclusão da noite, uns tentam fazer negócio, outros estão a pinar, outros tentam sobreviver ao dia-a-dia e ainda ir a baptizados.

Beijocas

P.S. - Peço desculpa pela linguagem brejeira, mas neste espaço não consigo ser séria

3:04 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

O que é isso a pedir desculpa pela linguagem?
Neste blogue há total liberdade de expressão. E todos os comentários são bem-vindos e agradecidos.
Comigo é assim!

Beijinhos.

4:09 da tarde  
Blogger Maríita said...

O termo auto-putas é lindo! Fica sempre bem dizer que se contarem x auto-putas numa conversa entre amigos...

Beijinhos

7:24 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

Pois é. Quando fiz a descoberta fiquei muito feliz. A designação tem sido um êxito.

Por acaso ontem passei pelo Técnico no regresso do Passerelle. Às cinco da manhã ainda havia quatro auto-putas. Num jipão estavam três à conversa; depois havia um desportivo pequenino onde está sempre uma que me dá ideia de fazer pouco negócio (nunca a vi a falar com nenhum cliente);mais uma que ja apareceu aqui no Blog nos primeiros dias (é a das válvulas desacertadas. Deixa a porta do carro aberta e exibe um excelente pernão); e a outra era uma brasuca com carro de marca, que trabalha em vendas e vai para ali sacar mais umas massas.

Os meus respeitos, minha senhora.

2:22 da tarde  
Blogger Capitão-Mor said...

Nada dava mais jeito ver esses jogos todos no domingo desportivo? Ops, esqueci-me que essas maratonas televisivas na RTP2 não existem mais...

9:10 da tarde  
Anonymous Luís Graça said...

O tempo de antena da RTP2 ainda existe, mas muito do que é bom passou para a Sport TV. E eu já desisti da Sport TV. Obrigaram-nos a mudar de caixa.

Com a nova caixa aquilo passava a vida a bloquear. Em dois meses, mudei duas vezes de caixa e duas vezes de controlo.
Disse: "Dão-me a caixa antiga?". E eles: "Não".

Então beijinhos e um queijo da serra. Perdi algumas comodidades (ver ténis de madrugada, por exemplo) mas já não stresso em chegar a casa e aquilo estar bloqueado.

Muitos dos jogos vou ver para o Record, que é a cinco minutos de minha casa. Em plasma gigante. os gajos gozam sempre comigo quando me vêem chegar: "Olha lá, podias fazer umas breves. Vens para aqui só para ver TV e não ajudas nada...".

No dia do Portugal--Holanda do Mundial fui para lá ver o jogo e levei uma porradaria de bolinhos para a Redacção. Pensei que o pessoal atacasse forte e feio. Afinal, foram até comedidos.
Eu sou louco por sortido húngaro e o pessoal não atacava. E eu até queria que atacassem, para eu não abusar e não ficar lixado do estômago.

E tinha uma partida preparada. Levava uma camisola da selecção portuguesa vestida, brinde da Visão. Os gajos que me conhecem bem estranharam o número.

Fiquei a ver o jogo sossegadamente. Foi o arraial de porrada que se sabe. Às duas por três o Van Nistelroy vai aquecer. Eu dispo a camisola da selecção portuguesa e fico com o T-shirt oficial da selecção holandesa, com Nistelroy nas costas. Tiro o cachecol que tinha escondido da selecção holandesa e começo a correr de um lado para o outro a aquecer, e a berrar: "Vou virar o jogo! Vou virar o jogo".

Gargalhadas na Redacção. O coordenador das modalidades veio avisar-me, numa onda de amigo:
"Olha lá, tu é que sabes, mas o director está ali a 20 metros, o homem ainda te expulsa da Redacção".

E era bem expulso, apesar do suborno dos bolinhos. Visto por outro prisma, era apenas mais uma expulsão naquele jogo. Facto banal.

7:03 da manhã  

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